Escândalo Pegasus: estamos todos virando espiões sem saber?

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Antes, espionagem exigia muito tempo e paciência, e era algo à disposição de poucos governos; hoje, há ferramentas que podem ser adquiridas por qualquer um, algumas vezes gratuitas. Como chegamos a um mundo com tantos espiões e espionados? Dona de programa acusado de espionar jornalistas e ativistas, NSO Group garante que seus produtos são usados criteriosamente
Getty Images via BBC
As suspeitas de que um software espião conhecido como Pegasus foi usado para vigiar jornalistas, ativistas e até mesmo políticos demonstra que, hoje, a vigilância está à venda.
A empresa por trás da ferramenta, a NSO Group, nega as acusações e diz que seus serviços são usados de forma criteriosa.
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Mas o escândalo é mais um sintoma de que as técnicas de espionagem de ponta, antes exclusividade de alguns Estados, estão agora disseminadas e desafiam a privacidade e a segurança em um mundo cada vez mais digital.
Em um passado não muito distante, se um serviço de segurança quisesse descobrir o que você andava fazendo, precisava fazer um certo esforço: podiam obter um mandado de segurança para grampear seu telefone, plantar um ponto de escuta na sua casa ou enviar agentes para te vigiar.
Descobrir a rotina e os contatos de alguém exigia mais paciência e tempo.
Agora, quase tudo o que os outros podem querer investigar — o que uma pessoa diz, onde esteve, quem conheceu, e até quais são seus interesses — está reunido em um aparelho que carregamos o tempo todo.
Um celular pode ser acessado remotamente sem que ninguém sequer toque nele, e sem que seu proprietário perceba.
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A capacidade de acessar remotamente um celular já esteve nas mãos de poucos Estados — mas, hoje, vários países, e até mesmo indivíduos e pequenos grupos, conseguem ter acesso a esse tipo de serviço.
Potência israelense
Hoje, celulares representam um verdadeiro tesouro de dados
Getty Images via BBC
Em 2013, o ex-consultor da Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) Edward Snowden revelou o poder das agências de inteligência dos EUA e do Reino Unido para acessar as redes globais de comunicação.
Essas agências sempre afirmaram que suas operações estavam sujeitas às autorizações e à supervisão de um país democrático. Na realidade, esse monitoramento por órgãos públicos era bastante fraco na época, mas foi incrementado desde então.
As revelações de Snowden, entretanto, mostraram a outros países o que havia no cardápio de espionagem e serviços de inteligências — que um grupo de empresas, a maioria bastantes discretas, tinham à disposição para vender.
Israel sempre foi uma potência de primeira linha neste mercado, criando e detendo recursos de vigilância de ponta. Suas empresas, como a NSO Group, muitas vezes formadas por veteranos de órgãos de inteligência, logo se tornaram uma das protagonistas no segmento.
A NSO diz que só vende seu programa de espionagem para monitoramento de criminosos graves e terroristas. O problema é definir essas categorias.
Países autoritários frequentemente defendem que jornalistas, opositores e ativistas são criminosos ou uma ameaça à segurança nacional, o que os tornaria dignos de vigilância.
E em muitos desses países, há pouca ou nenhuma responsabilidade e supervisão por outros órgãos públicos de como essas poderosas ferramentas são usadas.
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A disseminação da criptografia também tornou mais tentador para governos acessarem os dispositivos das pessoas. Quando as ligações eram o principal meio de comunicação, uma empresa de telefonia podia receber ordens para grampear a conversa — e isso significava literalmente conectar fios à linha.
Mas agora as conversas costumam ser criptografadas, o que significa que você precisa acessar o próprio dispositivo para ver o que foi dito. Além destas informações, os celulares carregam muitas outras — um verdadeiro tesouro em termos de dados.
Em alguns casos, os Estados já demonstraram fazer isso de maneira inteligente e bem justificada — um exemplo recente foi uma operação conjunta entre Estados Unidos e Austrália, na qual gangues receberam celulares que pareciam seguros, mas na verdade eram operados por policiais.
Outras ferramentas facilmente acessíveis
A disseminação do acesso a serviços de inteligência de ponta no mundo vai muito além de programas de spyware.
No passado, o ransomware — um ataque no qual hackers exigem pagamento para desbloquear o acesso ao seu sistema — era território de alguns grupos criminosos. Agora, ele é vendido na dark web, uma área da internet que costuma funcionar como uma espécie de mercado clandestino.
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Uma pessoa pode oferecer parte dos lucros de um ataque e receber não só as ferramentas de ransomware, como suporte e aconselhamento para tal.
Outros serviços, como rastreamento da localização e vigilância das atividades de uma pessoa, exigiam antes autoridade e especialização, mas hoje estão disponíveis gratuitamente.
E quando se trata de vigilância, não estamos falando apena dos Estados.
Trata-se também do que as empresas conseguem fazer para monitorar nossos hábitos e gostos, e vender estas informações para fins publicitários e comerciais. Os conjuntos de dados reunidos por empresas são vulneráveis também a roubos por hackers e espionagem por agências de inteligência.
Por outro lado, spywares podem ser usados por famílias na busca pelo paradeiro de pessoas desaparecidas, entre outros usos que podem parecer mais nobres.
Há muitas ferramentas de espionagem, vendedores e compradores à disposição hoje. É um mundo em que todos podemos nos tornar espiões — mas podemos igualmente ser espionados.
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