Jejum elogiado por influenciadora pode estimular transtorno alimentar em jovens, diz Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição

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Mayra Cardi escreveu em suas redes sociais que ficou 7 dias sem comer e que ‘não imaginava que iria ser tão mágico’. Sociedade médica diz que ‘não existe na ciência nenhum respaldo’ para a prática.
Post de Mayra Cardi em que defende jejum de 7 dias
Reprodução/Instagram
“Não existe na ciência nenhum respaldo para afirmarmos que um jejum de 7 dias traga benefícios para nosso corpo no sentido nutricional. Essa prática pode até ser nociva, trazendo riscos graves relacionados à falta de nutrientes”, disse a Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN) .
O posicionamento ocorre após a influenciadora Mayra Cardi ter publicado, na última quarta-feira (28), em sua conta no Instagram, que fez um jejum de 7 dias e que “não imaginava que iria ser tão mágico” (veja imagem acima).
“Queria ficar mais dias pois ainda não tenho fome, mas eu obedeci sendo um primeiro [jejum] de 7 dias”, escreveu Cardi.
A SBAN disse, em nota, que “nosso metabolismo depende de nutrientes para todas as funções de funcionamento corporal”. Esclareceu, ainda, “que muitos desses nutrientes não ficam estocados, por isso precisamos ingeri-los todos os dias, como é o caso da vitamina C”.
Além disso, a sociedade médica, criada em 1985 pela Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo (USP), afirma que “outro assunto que deve ser levado em consideração é o impacto que uma influenciadora tem nas redes sociais em adolescentes que buscam o ‘corpo magro'”.
“Existem pesquisas que relacionam o tempo de uso de redes sociais a anorexia e bulimia, além de transtornos de imagem corporal. Essa apologia ao ‘não comer’, deixa pessoas mais suscetíveis a desenvolver um transtorno alimentar para se igualarem a blogueira”.
O G1 entrou em contato com a equipe de Mayra Cardi para mais informações na sexta-feira (30). Em resposta, disseram: “esse assunto já foi falado e está muito claro que possui médicos cuidando dela, isso foi dito desde o início e o assunto está encerrado para nós”. Nesta terça (4), o G1 pediu posicionamento sobre a nota divulgada pela SBAN e aguarda resposta.
Outras críticas
Ainda na semana passada, o médico nutrólogo Bruno Cosme também comentou o assunto, o que acabou gerando um embate on-line com a influenciadora. Segundo ele, o jejum é “totalmente desprovido de evidências científicas” (assista ao vídeo abaixo).
Médico nutrólogo diz que jejum de 7 dias é ‘totalmente desprovido de evidência científica’
O jejum de 7 dias é um tipo de jejum intermitente, que geralmente é feito em um prazo menor. De acordo com a SBAN, existem pesquisas relacionadas ao assunto e a “prática pode ser útil para algumas condições metabólicas sob orientação médica e nutricional”.
“[O jejum intermitente] é indicado para pessoas que já têm o hábito de fazer intervalos longos entre as refeições. Entretanto, ele não é mais eficaz que uma restrição calórica orientada por um profissional especializado em perda de peso”.
“Quando esse jejum proporciona uma restrição calórica muito severa, as chances de perder massa magra são grandes. A grande preocupação está no pós jejum intermitente, pois as chances de as pessoas compensarem na próxima refeição são altas, principalmente as que não têm o costume de ficar intervalos longos sem comer”, completou.
A Associação Brasileira de Nutrição (Asbran) também já se posicionou sobre o jejum intermitente. Um comitê científico da Asbran analisou o assunto e publicou um parecer em 2019. O G1 entrou em contato e o documento foi enviado, sem alterações. A recomendação ainda é a mesma: “as alegações para sua utilização ainda são insuficientes para sua recomendação”.
OMAD: versão extrema do jejum intermitente, dieta Uma Refeição por Dia pode oferecer riscos à saúde
De acordo com a Asbran, o “jejum intermitente ganhou popularidade ao longo da última década, apesar da prática ser mundialmente realizada desde a antiguidade, especialmente por grupos religiosos, dentre estes os budistas, cristãos, muçulmanos e hindus”.
Dieta do jejum intermitente prega não comer nada para emagrecer
No entanto, o documento diz que a “hipótese mais aceita cientificamente” quanto à origem da obesidade e demais doenças crônicas está “fortemente associada à falta de estilo de vida saudável (alimentação inadequada e sedentarismo) e não necessariamente ao fracionamento ou intervalos menores ou maiores de alimentação”.
“Não há subsídios científicos suficientes para que não seja seguido um padrão alimentar baseado em alimentação diária, com refeições fracionadas em 5 ou 6 porções ao longo do dia” – Associação Brasileira de Nutrição.
Os especialistas da Asbran explicam que a prática é baseada em estudos que foram feitos em animais, e também em dados do jejum religioso (particularmente o Ramadã). As diversas religiões que adotam o jejum “realizam isso de forma esporádica e sem alteração do padrão alimentar por longo tempo”.
Os nutricionistas defendem mais estudos controlados e randomizados, com padrão ouro, para poder chegar a uma conclusão com segurança e sem chance de desenvolvimento de distúrbios alimentares.
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