Hanseníase, malária, tuberculose: pandemia reduz combate a doenças que afetam os mais pobres

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O pesquisador Jadel Kratz, especialista em doenças negligenciadas, explica a precário cenário de enfermidades como Chagas, hanseníase e leishmaniose em meio à emergência de saúde pública gerada pela covid-19. Dengue, doença de Chagas, leishmaniose, hanseníase, malária, esquistossomose e tuberculose são consideradas doenças negligenciadas
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Hanseníase, esquistossomose, doença de Chagas, leishmaniose, malária, hepatites, filariose linfática… a lista é grande.
93% dos novos casos de Hanseníase diagnosticados nas Américas são do Brasil
Brasil enfrenta desabastecimento de remédios de hanseníase e entidades dizem que governo ignora alertas há mais de um ano
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Com a emergência de saúde pública criada pela Covid-19, o combate a doenças que mesmo antes da pandemia já recebiam pouca atenção piorou dramaticamente. Estas enfermidades costumam ser classificadas pela comunidade científica como “doenças negligenciadas”.
O termo se refere a doenças infecciosas que atingem um grande número de pessoas e afetam principalmente as populações mais pobres.
Segundo a Organização Mundial de Saúde, as chamadas doenças negligenciadas podem afetar até 1,6 bilhão de pessoas em todo o mundo. Elas estão principalmente na Ásia, na África e na América Latina.
Mesmo antes da pandemia, elas já recebiam poucos investimentos da indústria farmacêutica porque, para muitos especialistas, tanto os remédios quanto os tratamentos renderiam pouco lucro a laboratórios.
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Esta é a visão de Jadel Kratz, um especialista em doenças negligenciadas que chefia a área de Pesquisa e Desenvolvimento da DNDI (Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas), uma entidade sem fins lucrativos que defende o combate a essas enfermidades.
Enquanto o mundo concentra esforços no combate à Covid-19, pesquisas e estudos clínicos sobre as doenças negligenciadas foram interrompidos. E faltam remédios para pacientes, afirma Kratz em entrevista à BBC News Brasil.
“Doenças que estavam muito próximas de serem controladas, ou erradicadas, ou de atingirem os objetivos de combate da OMS talvez tenham retrocessos”, diz o pesquisador.
Ele alerta que iniciativas importantes para o diagnóstico destas doenças em diversas universidades foram paralisadas com a pandemia. E aponta que elas são essenciais, já que muitas das pessoas afetadas não têm acesso ao sistema de saúde e, no fim das contas, podem nem saber que estão doentes.
As consequências podem ser graves, incluindo o risco de gerarem comorbidades que tornem as infecções por Covid-19 ainda mais graves, explica Kratz.
“São doenças que têm problemas de resistência a medicamentos. Então, se o paciente interromper o tratamento, aquele mesmo tratamento talvez já não seja eficaz lá na frente.”
Para Kratz, este cenário torna ainda mais importante o controle da epidemia de Covid-19 o mais rápido possível.
Leia abaixo os principais trechos da entrevista de Kratz à BBC News Brasil.
A hanseníase é uma das doenças que podem debilitar as pessoas afetadas para o resto da vida
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BBC News Brasil – Por que pesquisas em universidades e instituições públicas são importantes para doenças negligenciadas?
Jadel Kratz – A pesquisa acadêmica é importante em todas as áreas das ciências da vida. Muitas das inovações médicas e farmacêuticas começam com a ciência básica. Mas, mais ainda onde o modelo tradicional farmacêutico não está. Uma vez que a indústria tem pouco interesse nessa área, por uma série de razões, uma delas o lucro, as instituições públicas que têm essa missão assumem um papel ainda mais central.
É o caso da Fiocruz, que foi criada pensando nisso, e de fato é um dos centros de pesquisa mais relevantes para essas doenças no Brasil.
BBC News Brasil – Como a pandemia afetou esse cenário no último ano?
Kratz – A real magnitude do impacto disso ainda está sendo acessado. Historicamente, as doenças tropicais negligenciadas, por exemplo Chagas, leishmaniose, tuberculose, hanseníase, já vem de um histórico de pouco investimento. O investimento é baixo, mas é relativamente estável. Sendo criativo, fazendo-se novos modelos, às vezes a gente consegue avançar.
Mas, quando surgiu uma emergência médica do nível da Covid-19, boa parte dos investimentos foi sugada. Os investimentos já eram escassos e deixaram de estar disponíveis para essas doenças. A prioridade do financiamento para pesquisas em doenças negligenciadas caiu, foi para outra área. E talvez os números gerais de investimentos sejam menores no final porque talvez o mundo entre em crise. O dinheiro vai diminuir, apesar de todo mundo reconhecer agora que é importante fazer pesquisa biomédica.
Além da diminuição dos investimentos, as próprias condições para os estudos foram dificultadas. Os estudos clínicos normalmente são feitos em ambiente hospitalar e muito descentralizados. Os estudos clínicos para outras enfermidades pararam. Ou porque o hospital está completamente lotado e precisa redirecionar todos os recursos para o atendimento emergencial ou porque ele foi fazer um estudo clínico para a Covid-19. Tem levantamentos nos EUA que mostram que reduziu por volta de 80% o número de estudos clínicos rodando..
Foram todos substituídos por estudos para Covid-19 — vários deles mal desenhados, feitos na correria.
Nossos laboratórios que desenvolvem novos medicamentos para Chagas e Leishmaniose tiveram que ficar por vários meses fechados na Unicamp. A gente tem projetos com parceiros na Unicamp, na USP, na UFRJ e muitos desses laboratórios tiveram que fechar. Desde o nível mais básico, para entender como aquele parasita afeta o corpo, até os estudos clínicos sendo feitos no ambiente hospitalar.
Vai atrasar ainda mais as pesquisas que já estão historicamente atrasadas.
A maior parte dessas doenças atingem majoritariamente crianças e deixam sequelas físicas, sociais e econômicas para o resto da vida
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BBC News Brasil – E a produção de remédios para essas doenças?
Kratz – Um ponto importante é a interrupção das cadeias, tanto de estudo quanto de suprimentos. Então, não só as pesquisas estão paradas, como faltam medicamentos.
Muitas das doenças tropicais não têm uma maquinaria bem azeitada de produção. Um exemplo clássico é a hanseníase: as medicações são antigas, não são ideais, têm uma série de efeitos colaterais negativos. Mas é importante que os pacientes tenham acesso a essas medicações, mesmo que elas sejam imperfeitas.
Elas normalmente são baratas, antigas, não têm um incentivo de negócio para a produção. Muitas vezes, as indústrias que ainda fazem a produção desses medicamentos doam ou vendem a preços super baratos para o sistema de saúde. Muitas pararam de produzir esses medicamentos porque foram produzir coisas mais urgentes. Então, as cadeias foram interrompidas e os pacientes ficaram sem (remédios), como no caso da hanseníase.
BBC News Brasil – Quando as coisas voltarem ao normal, será possível recuperar esses projetos de onde pararam? Ou perde-se parte do que já tinha sido feito e é preciso começar tudo de novo?
Kratz – A cadeia foi muito abalada e a gente não sabe quando isso vai retornar. Em estudos clínicos de campo foram interrompidos, aquilo se perdeu. Além disso, há lacunas: a ciência é feita por pessoas e elas passam por uma formação para chegar lá. Com a pandemia, vai ter muita lacuna de pessoal, de cientistas sendo formados. Gente que teve que postergar seu mestrado, suas pesquisas, sobretudo cientistas de início de carreira.
As doenças tropicais negligenciadas têm um plano bastante estruturado de pesquisa, que é o roadmap (mapa de projetos futuros) da Organização Mundial da Saúde de controle e eliminação de doenças.
Isso envolve múltiplas estratégias, muitas delas de campo. Controle de vetores, melhora de infraestrutura, administração de medicamentos, diagnóstico, monitoramento de pacientes. E muitas vezes, especialmente no caso das doenças negligenciadas, isso é feito na Unidade Básica de Saúde (UBS). Agora a UBS está maluca controlando Covid-19, não consegue fazer mais nada. Doenças que estavam muito próximas de serem controladas, erradicadas, ou de atingirem os objetivos de combate da OMS, talvez tenham retrocessos. Doenças como tuberculose, malária, Chagas, leishmaniose que têm problemas sérios de subnotificação e diagnósticos, pioraram ainda mais, não há dúvida. Doenças como tuberculose, que mata na escala de milhão de pessoas por ano, foram largadas ao ostracismo pela urgência da pandemia.
BBC News Brasil – Então o atendimento aos pacientes também foi afetado?
Kratz – Além do impacto nas pesquisas você teve o impacto nas estratégias já implementadas de combate e controle. Sobretudo essas iniciativas grandes de diagnósticos, achar os pacientes e tratá-los. E são doenças que têm problemas de resistência à medicamentos. Se o paciente interrompe o tratamento no meio, aquele mesmo tratamento talvez já não seja eficaz lá na frente. O impacto é claro, só não está mensurado ainda.
A gente pode pegar o exemplo clássico da doença da Chagas, que é uma doença parasitária negligenciada que afeta principalmente regiões pobres e com pouca infraestrutura no mundo. Muitas das pessoas moram em áreas endêmicas, rurais, têm baixa escolaridade, problemas associados à pobreza, não têm acesso ao sistema de saúde e acabam não diagnosticadas. O resultado disso é que o número de pessoas que é de fato diagnosticado é baixo, mas a gente estima que haja 6 milhões de pessoas com a doença no mundo. Nas regiões endêmicas, há mais de 70 milhões de pessoas em risco. E no fim, menos de 1% das pessoas que têm Chagas acessam o tratamento. A lacuna do diagnóstico e tratamento é preenchida por grandes esforços: ter pessoas no campo, com kits de testagem adaptados, baratos, e com tratamento seguro e barato. E a pandemia afetou isso, não só para Chagas, mas para outras doenças.
E essas pessoas que deixam de ser diagnosticadas e tratadas continuam sendo reservatórios da doença, o que pode contribuir para que outras pessoas se infectem, através dos vetores (no caso de Chagas, o barbeiro). Não tratadas e não diagnosticadas, as pessoas podem desenvolver as formas mais graves e morrerem. E se infectadas por covid podem ter um agravamento do quadro por causa de comorbidades.
São doenças que têm a transmissão facilitada por condições ambientais, como umidade
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BBC News Brasil – Falando em comorbidade, como as pessoas com essas doenças são afetadas pela covid?
Kratz – É difícil falar em números, mas eu não tenho dúvidas que o que está sendo feito para analisar a questão da comorbidade é insuficiente justamente pela questão de que a gente mal está conseguindo controlar a pandemia. A doença de Chagas, por exemplo, tem uma ligação super clara de comorbidade. Normalmente o paciente se infecta, tem um quadro agudo, com pouca mortalidade nesse estágio — muitos dos pacientes nem percebem que pegaram. E depois aquilo cronifica, reduz a carga parasitária e uma parte desses pacientes, cerca de 20%, 30% vão ter problemas cardíacos associados ao trypanosoma cruzi. E o paciente pode nem saber que tem comorbidade, e aí pega covid e acaba tendo um quadro mais grave.
A covid não enxerga classes, mas se a comunidade mais pobre tem mais Chagas, então ela está propensa a ter quadros mais vulneráveis e casos mais graves de covid associados à comorbidade.
A covid é uma doença infecciosa que tem um componente forte do sistema imunológico no agravamento dos casos. A gente sabe que muitos dos casos graves não é a doença em si que agrava a situação da pessoa, mas a reação do sistema imunológico. Então a pessoa ter um sistema imunológico funcionando plenamente ajuda que a doença não se agrave. E muitas das doenças negligenciadas também afetam o sistema imune, como a leishmaniose.
As doenças negligenciadas se concentram em áreas pobres, como favelas urbanas e zonas rurais remotas
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BBC News Brasil – Tem alguma lição que a pandemia pode trazer sobre a forma como fazemos ciência que pode ajudar no combate às doenças negligenciadas no futuro?
Kratz – Essa pandemia mostrou o quanto é importante a pesquisa colaborativa, interdisciplinar e integrada. Ou seja, o quão importante é a colaboração, que se manifesta através de ciência aberta, compartilhamento de dados, financiamentos coletivos em vez daquele modelo fechado, pensando só no lucro. A gente teve oportunidade de validar novas plataformas, como as vacinas de RNA. Se a gente pensar que o vírus foi sequenciado em janeiro do ano passado e no final do ano a gente estava fazendo ensaio clínico de fase 3 (a fase mais avançada antes da liberação para o público), tudo isso em um ano… Isso vem para dar uma chacoalhada: sim, é possível fazer mais rápido, com qualidade, quando tem prioridade, financiamento e colaboração.
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