Escritor Ryan Holiday transforma antiga linha filosófica grega em livros de autoajuda ‘cool’

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Norte-americano, que começou a carreira arquitetando golpes publicitários, falou ao G1 sobre sua série de obras baseada no estoicismo como estratégia para enfrentar a vida moderna. O escritor norte-americano Ryan Holiday, autor de ‘A quietude é a chave’, em um hotel de São Paulo
Shin Suzuki/G1
A trajetória do norte-americano Ryan Holiday como escritor é um pouco a história da comunicação nesta década. Começa com ensinamentos sobre como chamar a atenção dos outros na internet e termina estes anos 2010 do outro lado do balcão, com estratégias para não gastar o seu foco com coisas desnecessárias em um mundo saturado de estímulos e informação. Holiday tem apenas 32 anos e 8 livros publicados, a metade deles baseada em uma linha filosófica que nasceu na Grécia do século 3 a.C. e que tem mantido sua influência ao longo da história: o estoicismo.
Algumas das principais questões dos filósofos estoicos giram em torno de viver bem, de ser feliz em um mundo imprevisível, em que boa parte do que acontece parece fora do nosso alcance ou controle. Essa escola filosófica também levantou interesse da psicologia comportamental e da neurociência – por examinar como lidamos com nossas paixões e emoções em busca de bem estar. Ideias próximas de preocupações dos tempos atuais, o que explica a popularidade do autor com livros como “O ego é seu inimigo” e “O obstáculo é o caminho” tanto entre o público leitor como entre personalidades do Vale do Silício e atletas da NBA e da NFL (a liga de futebol americano).
Antes de se estabelecer como ponta de lança do estoicismo “cool”, Holiday teve um início profissional bem distante da serenidade pregada em seu mais recente livro, “A quietude é a chave”. Ele largou a faculdade aos 19 anos, depois assessorou Robert Greene e Tucker Max, dois autores que pregavam, cada um à sua maneira, uma espécie de auto-ajuda agressiva para obter de sucesso e poder a conquistas amorosas.
A seguir, chefiou aos 21 anos o departamento de marketing da American Apparel e ajudou a empresa de roupas a cultivar uma imagem bastante sexualizada em anúncios com o objetivo de gerar “buzz”. No final, acusações reais de assédio sexual contra o fundador Dov Charney fizeram a marca se distanciar desse “conceito”. Holiday deixou a companhia em 2014.
Os golpes arquitetados pelo então marqueteiro serviram de base para o seu primeiro livro, “Acredite, estou mentindo – Confissões de um manipulador das mídias”. Nele, Holiday bancava uma espécie de Mister M dos truques para ganhar publicidade gratuita, expiava suas culpas pela participação nesses esquemas para lá de discutíveis e expunha a facilidade com que sites e blogs engoliam histórias mirabolantes sob a expectativa de caçar cliques e bombar a audiência.
“‘Acredite, estou mentindo’ foi como uma conclusão para aquele capítulo da minha vida. O meu livro seguinte [‘O obstáculo é o caminho’, já com base no estoicismo] era o que eu realmente queria publicar. Eu sempre escrevi sobre filosofia, inclusive na época da faculdade, antes de largá-la”, disse o autor na semana passada em um hotel de São Paulo, cidade que visitou para promover “A quietude é a chave”.
O livro chega num momento em que se discute se o excesso de conteúdo via internet e celular, e a atenção constantemente roubada, está fazendo bem para a nossa cabeça. “A quietude é o oposto do status quo atual. É quando você desacelera as coisas, quando você não está preocupado com o que já aconteceu, com o que talvez possa acontecer. É a ausência de paixões internas e externas. Você está presente, realizando o que está na sua frente”, diz Holiday.
A questão das paixões é central no estoicismo. Essa escola é muitas vezes caracterizada no imaginário geral como defensora do conformismo e pela desconexão dos sentimentos humanos mais normais (raiva, frustração etc). Os adeptos dizem que essa é uma visão superficial e que se está falando em autocontrole, em não fazer juízo de valor sobre alguns acontecimentos fortuitos da nossa vida (imaginemos: você está chegando à estação e vê partindo naquele exato momento o ônibus que queria pegar. Fará bem ou será de serventia espumar de raiva, passar os próximos minutos pensando que foi o alvo preferencial de uma piada de mau gosto do universo?).
“As pessoas gastam tempo demais pensando nas possibilidades, no que poderia ter sido e ficam remoendo. E é daí que a ansiedade vem. Não estar presente no momento é quase uma forma de arrogância. É estar junto ao seu companheiro ou companheira e fazer com que, na prática, ele ou ela não seja merecedor(a) da sua atenção”
Sem utilitarismo 
Holiday, apesar de inspirar famosos em busca de grandes metas e altas performances, advoga não ser tão utilitarista em suas ações. Por exemplo, fazer uma caminhada durante as manhãs por causa dos benefícios para a saúde certamente é algo positivo. Combater o sedentarismo é o grande motivador de milhões de pessoas na hora de fazer exercícios. Mas esquecemos do prazer apenas na própria caminhada, no ato em si, que é primordialmente vista como uma obrigação matinal.
Parece um detalhe que não altera o produto final, mas é uma questão de como encarar o que está à frente. Na linguagem de coaches que conquistam as multidões hoje, de “mindset”. 
“Nas nossas memórias de momentos divertidos da infância há a impressão de que estávamos mais presentes, menos preocupados em realizar uma atividade, porque não era uma obrigação”, declara Holiday, que pontua a maioria das frases com um “d’you know what I mean?” (“entende o que eu quero dizer?”). 
De novo, as redes sociais 
O escritor também engrossa as fileiras dos que consideram o celular e as redes sociais um obstáculo para desfrutar desses prazeres mais simples. 
“Nós estamos percebendo que algumas das pessoas mais espertas do mundo gastaram um bom tempo tentando descobrir maneiras de capturar nossos instintos mais básicos. O que as redes sociais exploram é o nosso desejo de ser ouvido e de receber validação dos outros”, afirma Holiday. 
“Muitas tecnologias são excelentes para a vida. Uma coisa é você usar a tecnologia. Outra é você ser usado por essa tecnologia. Talvez a pergunta que a gente tenha que se fazer cada vez mais é: ‘isso está servindo realmente para mim ou apenas estou trabalhando de graça para as redes sociais.”
O autor diz que não pega no celular por no mínimo uma hora depois de ter acordado e recomenda gastar mais tempo com um meio bastante antigo de aquisição de informação e conhecimento: livros.
Em “A quietude é a chave” Holiday cita um dos estoicos mais famosos, o imperador romano Marco Aurélio: “Em suas Meditações, Marco Aurélio diz:” Pergunte a ti mesmo a cada momento: ‘Isto é necessário?'”. Saber sobre o que não pensar. O que ignorar e o que não fazer. Essa é a sua primeira e mais importante tarefa”. 

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