Produtores de laranja superam principal doença da atividade e alcançam maior produtividade da história

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Desde 2004, setor produtivo pesquisou e se modernizou para evitar o avanço do greening, que é atualmente o maior vilão da citricultura. Produtores de laranja superam principal doença da atividade e alcançam maior produtividade
Os produtores de laranja do Brasil vão colher cerca de 390 milhões de caixas da fruta nesta safra. Esses agricultores estão conseguindo a maior produtividade de sua história, 1.050 caixas por hectare.
E a fruta tem que ser boa mesmo, já que de cada cinco copos de suco bebidos no planeta, três são das nossas laranjas. Esse resultado só está sendo possível após o setor se mobilizar para combater a principal doença da atividade: o greening.
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No mundo todo, a lavoura de laranja é uma das mais sensíveis a pragas e doenças. São fungos, vírus, bactérias, insetos. Uma ameaça constante e que já eliminou milhões e milhões de árvores nas últimas décadas.
Não é de hoje que os pomares de laranja enfrentam doenças preocupantes para a produção. Nas décadas de 1970 e 1980, o cancro cítrico foi a grande dor de cabeça do agricultor.
Não foi à toa que o principal instituto de pesquisa da laranja no Brasil nasceu por causa de uma doença. Foi sob a ameaça desta doença que as grandes indústrias de suco criaram o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), que funciona no município de Araraquara, interior de São Paulo.
“Nem na China, onde surgiu a laranja tem tanta praga e doença [quanto no Brasil]”, diz o gerente geral do Fundecistrus, Juliano Ayres.
Após o cancro, veio o ataque do CVC, também chamado de amarelinho, que tirou o sono dos pesquisadores porque eles precisavam entender os mecanismos da bactéria.
Mas nenhum outro problema foi tão devastador quanto o greening, que chegou no brasil em 2004 e até agora deixa o produtor em constante estado de alerta.
O ‘efeito greening’
Só no Brasil, o greening já provocou a destruição de mais de 56 milhões de árvores, nos últimos 15 anos. Essa é uma doença que não tem cura. Ela se alastra por meio de um inseto minúsculo, o psilídeo, de apenas 3 mm, e que há muito tempo frequenta os pomares brasileiros.
O inseto estava presente na produção de laranja desde a década de 1930, mas apenas em 2004 ele adquiriu a bactéria causadora da doença e o psilídeo se tornou o transmissor.
A doença atrapalha a circulação do “sangue” da planta, a seiva. No Brasil, 37 milhões de laranjeiras em produção estão com greening, o que corresponde a 19% do chamado cinturão citrícola, que abrange parte dos estados de São Paulo e Minas Gerais.
Os sintomas iniciais da doença é o amarelecimento dos ramos. As folhas, também vão amarelando e o fruto não consegue se desenvolver, fica pequeno e murcho. “É uma morte lenta e progressiva”, resume o agrônomo do Fundecitrus Luís Henrique Scandelai.
Com a queda precoce dos frutos, pelo menos 32 milhões de caixas deixaram de seguir para a indústria nas últimas três safras, por causa do greening.
E eliminar plantas doentes é uma das práticas recomendadas para o controle do greening. A sobrevivência da atividade passa também pela substituição das plantas mais velhas.
“Corta o coração fazer isso aí [derrubada e corte de árvores mais velha], mas é necessário. Ou você corta o coração e faz ou você não sobrevive nisso [atividade]”, explica o agricultor Luiz Carlos Finoto.
A derrubada de pomares antigos se tornou uma realidade nunca antes vista com tanta intensidade na citricultura brasileira. De 15 anos para cá, 86% da área de laranja foi renovada.
“Hoje, a densidade média é dos nossos pomares é em torno de 500 e 600 plantas por hectare. Então, nós podemos dizer que a gente gasta aí R$ 35 mil por hectare até a idade produtiva”, afirma Rodrigo Lemo, gerente de produção de uma das fazendas visitadas.
Novo mapa da produção de laranja
Enquanto a pesquisa projeta o futuro, no campo a realidade atual altera a geografia dos pomares.
Isso por que a convivência forçada com o greening está mudando o mapa da citricultura no estado de são paulo. Antes da doença, as chamadas capitais da laranja seguiam a rota dos municípios de Limeira, Araraquara, Bebedouro e Itápolis.
Agora, há um movimento de migração das lavouras, que tem trazido os pomares para a região que engloba Avaré, Itapetininga e Itapeva. O motivo tem a ver com o clima.
“Essa região ela possui um clima mais ameno, temperaturas que giram em torno de 20°C para baixo. Diferente de outras regiões, onde a temperatura é de 24°C a 30°C. Temperaturas essas que favorecem ao psilídeo”, afirma Guilherme Rodrigues, agrônomo do Fundecitrus.
Diante das vantagens climáticas, o sudoeste do estado triplicou o número de pés de laranja nos últimos 15 anos.
Mudança no manejo
Ao longo dos anos, os citricultores mexeram no espaçamento para recuperar o quanto antes os investimentos com a lavoura. Há 10 anos, cada hectare contava 440 plantas, passou para 550 plantas e atualmente são 700 pés por hectare, em média.
Quando as lavouras já estão crescidas, há ainda o monitoramento do psilídeo feito com essas armadilhas. Já são 25 mil cartelas dessas espalhadas pelos laranjais paulistas. Elas funcionam como um termômetro para ajudar a definir as aplicações dos produtos químicos.
“Antigamente, se aplicava um volume muito grande e com pouca eficiência. Hoje, você tem um volume menor, uma tecnologia de aplicação mais avançada, que permite você aplicar a quantidade exata que precisa para aquele tamanho de planta”, diz o agrônomo do Fundecitrus Luís Scalai.
Futuro
E na tentativa de vencer a guerra contra as doenças, a pesquisa não parou. O Fundecitrus agora trabalha para desenvolver plantas que possam repelir o psilídeo, o inseto transmissor do greening.
“Essa é uma ideia que veio do Vietnã, eles observaram que as plantas de goiaba emitem compostos repelentes ao psilídeo”, disse o biólogo do Fundecitrus Nelson Wulff.
O trabalho da pesquisa é transferir para a laranja o material genético da goiaba que é responsável pela produção do repelente.
“O que nós fizemos foi identificar quais são esses compostos e fazer com que a laranjeira, que produz muito pouco desse composto, produza mais composto repelente ao psilídeo”, explica Wulff.
É a ciência em constante estudo para melhorar as técnicas de produção. É também o agricultor antenado com um jeito mais moderno de tocar seu pomar.
“O mal que nós vivemos no passado está sendo o grande benefício que nós temos hoje para enfrentar a pior doença do mundo, que é greening. E o Brasil mostrou que é possível fazer diferente e sobreviver a esse problema”, afirma o gerente geral do Fundecitrus, Juliano Ayres.

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