Países empacam no debate sobre o clima e abrem nova discussão para conseguir acordo sobre migrações

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Começa hoje a segunda e última semana de negociações sobre o clima mundial na Conferência das Partes que está acontecendo na Polônia, ancorada pelas Nações Unidas. E, se me permitem o trocadilho infame, a julgar pelas últimas informações, o clima esquentou na COP24, cuja sede é a cidade de Katowice. Segundo o site Climate Change News, o quatro grandes produtores de petróleo e gás – Arábia Saudita, os EUA, o Kuwait e a Rússia – bloquearam as negociações.
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Para costurar um texto tão complexo quanto o livro de Regras que deve ser divulgado ao fim da Conferência, é preciso que todas as partes envolvidas estejam de acordo. Isso quer dizer que, para embargar um texto desses é só alguém levantar uma questão mínima, e pronto. Neste caso, o que os quatro grandes estão colocando é que preferem que o texto diga apenas que os países das Nações Unidas devem “tomar nota” da conclusão do relatório do IPCC lançado em outubro e que faz um alerta bem sério, dizendo que serão necessárias mudanças sem precedentes para que o planeta atinja o aquecimento a 1,5ºC como está determinado no Acordo de Paris.
Mas os países em desenvolvimento que estão em Katowice e já sentem na pele os efeitos das mudanças climáticas (Madagascar é um deles) não querem uma referência assim tão descompromissada com os avisos dos cientistas. É preciso mais, dizem eles. Querem a palavra “acolher” quando o texto fizer referência ao estudo do IPCC. Representante de São Cristóvão e Nevis, país-ilha do Caribe, Rueanna Haynes foi enfática: se foi a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima quem solicitou aos cientistas que fizessem o estudo, como vai explicar que não vai utilizá-lo, acolhe-lo, em suas decisões finais?
“Esta não é uma escolha entre uma palavra e outra. Parece-me que, se há algo de ridículo sobre a discussão que está ocorrendo, é que nós, neste corpo, não estamos em posição de receber o relatório”, disse Haynes à reportagem do site.
Nunca é demais fazer bons links. São Cristóvão e Nevis está numa das regiões mais afetadas por furacões. E, segundo o Índice Global de Risco Climático publicado há cinco dias na COP24, em um ano mais de onze mil pessoas morreram por causa dos eventos climáticos causados pelas mudanças do clima.
A representante de São Cristóvão e Nevis não está sozinha em sua indignação. Na verdade, a COP24 está reeditando o velho embate entre os países ricos, que querem manter seu progresso com o “as usual” e os em desenvolvimento, que querem uma mudança de paradigma séria para enfrentar o que virá por aí em termos de eventos climáticos.
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Quem notou a diferença entre “notar” e “acolher” o relatório foram os representantes da Maldivas, e foi rapidamente seguido por outros, incluindo a União Europeia, América Latina, a própria Noruega, que é um grande produtor de petróleo e gás, vários países africanos, Suíça, Coreia do Sul, entre outros. O imbróglio ganhou corpo e os negociadores decidiram adiá-lo para a última semana, que começa hoje. Bom lembrar que na sexta-feira a COP24 vai divulgar para o mundo os resultados das negociações.
Representante de Belize, Carlos Fuller foi ao ponto. Segundo ele, vai ser interessante que a mídia leve a informação para os cidadãos comuns de que as discussões na COP24 emperraram por causa do Relatório do IPCC.
“Na minha opinião, vencemos a luta, porque a manchete de amanhã será: a UNFCCC não pode concordar com o relatório do IPCC”, e as pessoas dirão “Por que, o que há no relatório?” e vá e olhe. Os países produtores de petróleo reconhecem que, se a comunidade internacional considerar a mensagem do Relatório, isso significa uma mudança maciça no uso de combustíveis fósseis”, disse ele.
Tanto Fuller como outros negociadores da COP estão certos de que a disputa ganhou mais corpo com as posições de Donald Trump, que se revelou um cético do clima desde os primeiros instantes, seguido por outros líderes de menor importância na escala global, mas que podem fazer número nas negociações. Vamos aguardar o que virá.
Enquanto isso, começa hoje, no Marrocos, outra conferência internacional, desta vez para formalizar um Pacto Global sobre Migração. Trata-se de outro dos sérios problemas que a humanidade enfrenta e vai enfrentar cada vez mais daqui por diante. Atualmente, são 250 milhões de pessoas que se encontram na condição de migrantes em todo o mundo, o equivalente a 3,4% da população mundial, um aumento de 0,7% desde 2000.
Mas, aí também há problemas para se conseguir o mínimo de consenso. Vários países, de novo seguindo o líder da nação mais rica, estão pulando fora do Acordo, que entendem como uma espécie de ataque à soberania nacional. Coincidência ou não, segundo reportagem da Euronews, as negativas ao acordo têm surgido sobretudo em países onde se verifica uma crescente influência da extrema-direita.
Ontem foi a vez de o Chile sair do barco. Segundo Antonio Guterres, secretário-geral das Nações Unidas, é um erro não formalizar um acordo sobre uma questão que tem se tornado tão séria para todos os países. Mais ainda, é um erro não admitir que para muitos países ricos, que já estão vendo sua população envelhecer e as taxas de natalidade diminuírem, os migrantes podem ser uma ajuda e tanto.
“Nos muitos lugares onde a fertilidade está diminuindo e a expectativa de vida está aumentando, as economias vão estagnar e as pessoas vão sofrer sem a migração. Está claro que os países mais desenvolvidos precisam dos migrantes através de um amplo espectro de papéis vitais, desde cuidar de pessoas idosas até prevenir o colapso dos serviços de saúde”, disse ele no discurso de abertura da Conferência, no Marrocos.
São tempos em que os debates são mais necessários do que as verdades absolutas.
Amélia Gonzalez
Arte/G1

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